Tempo de Hanami

Esta história participou do Desafio do site Nyah! Fanfiction no mês de Julho de 2014.




Ela caminha apressadamente. Está atrasada. Para ela, horário é a chave de tudo, sempre. Não importa o compromisso, ou o que houvesse planejado. Sempre chegava com antecedência e honrava o horário. Sua mãe a havia ensinado que pontualidade e disciplina eram virtudes imprescindíveis numa mulher.

Mas aquele dia era diferente. Seus pensamentos estavam num envelope que recebera aquela manhã. As informações eram curtas e precisas: deveria estar ao meio-dia na Estação Yokohama, pontualmente. E deveria vestir-se adequadamente.

Durante horas pensou no que significava isto. Vestir-se adequadamente. Sempre se vestia adequadamente, de acordo com os padrões de sua família, extremamente tradicional. O vestir-se bem era uma das "virtudes" que sua mãe a ensinara. Desde sua morte, a honrava, fazendo tudo o que ela lhe ensinava de forma quase ritualística e fanática. Suas amigas até faziam graça disso, pois ela nunca desviava seu estilo. Era sempre sisuda, clássica, séria. Por isso a dúvida, quando abrira o armário e só vira cores sóbrias e neutras. "Vestir-se adequadamente" deveria ser fácil para ela, mas sentiu-se em dúvida. No fim das contas, escolheu uma saia lápis preta e uma blusa preta e branca, com sapatos pretos. Parecia uma contadora, mas era melhor pecar por simplicidade neste caso.

Ao chegar à estação, ficou pensando no que deveria fazer. Pegou o envelope na bolsa e o abriu. As letras de forma impressas em papel cartão branco não diziam nada além do que já sabia. Olhava várias vezes para o papel, manuseando-o, tentando encontrar algo a mais que lhe desse qualquer pista sobre aquilo.

Nada. Além de estar escrito em inglês, a única coisa que a fez seguir para a estação foi um pequeno ideograma no final:


Aquele era um ideograma kanji. Ela sabia que precisava averiguar.

Olhou ao redor, mas estava perdida e não sabia nem o que fazer, nem para onde ir. Ficou parada no meio do saguão, esperando. Pessoas circulavam, mas ninguém conhecido.

Aquele símbolo não saía de sua mente. Procurou algum rosto que pudesse identificar. Nada.

Aquele símbolo ainda estava desenhado em sua mente. Olhou ao redor para encontrar algum rosto ocidental. Encontrou vários turistas, em grupos aqui e ali. Mas a maioria eram nipônicos. Nada ainda.

Olhou novamente o cartão. Aquele ideograma, tinto de sangue, era o mesmo que fora gravado no corpo de sua mãe, dois anos antes. Chegaram em casa do trabalho e a encontrara assim, no meio da sala. A casa que era limpa até ao exagero, estava naquele momento com uma enorme poça de sangue no meio da sala. E no peito de sua haha, sua mãe, desenhado à navalha o símbolo japonês para LÁGRIMA. E agora, aquele mesmo símbolo estava ali, naquele cartão. O medo a estava invadindo. O que antes parecia uma morbidez agora tomava forma. Seria um encontro com o assassino de sua mãe?

Enquanto divagava não percebeu que um garoto de uns treze anos se aproximava. Empurrou-a, e quando ela virou-se para reclamar, ele deixou em suas mãos outro envelope, igual ao primeiro. Já ia chamá-lo, mas ele desapareceu na multidão.



Não perdeu muito tempo. Abriu o envelope. Não havia cartão desta vez; apenas uma chave com uma numeração. Sentiu a urgência da situação e correu para os armários da localização indicada na chave. Àquela hora, o local sempre está cheio de pessoas; mas estranhamente estava vazio. Olhou para todos os lados mas não entendeu. Correu para o armário indicado na chave: número 1212.

Teve um impacto. Era a data ocidental da morte de sua mãe, dia 12 de dezembro. Abriu a porta, e estranhou o que havia lá. Apenas uma chave de roda e um bilhete. Seguindo o mesmo padrão, o bilhete dizia:

Use a chave de roda.


Ouviu passos rápidos vindo em sua direção. Pensou em virar-se, mas não deu tempo. Foi agarrada por trás, num mata-leão, e tentou lutar, mas ele era mais forte e, pela forma como a segurava, mais alto. Estava tentando raciocinar, mas estava quase perdendo os sentidos. Num reflexo, bateu na testa do seu agressor, lembrando-se que segurava a tal ferramenta que estava no armário. Ele caiu e ela olhou para o corpo inerte, uma abertura na testa por onde sangrava bastante. Era um homem alto, mais alto que a média dos japoneses, com o rosto ocidentalizado. Era um mestiço. Largou a ferramenta do lado dele e pegou o bilhete no armário.

No verso havia mais algumas informações, novamente em inglês.

Trem das 12:30.
Terceiro vagão - assento preferencial

Olhou em seu relógio. Eram 12:22, precisava correr. Os trens japoneses eram conhecidos por sua pontualidade. O medo tomou conta. Será que havia matado aquele homem? E quem a estava atraindo para aquela teia? Ficou paralisada, sem saber se ia ou não. Ao ver um guarda no fim do corredor, percebeu que não podia esperar.

"Teishi!" gritou o guarda para ela, exigindo que não saísse de seu lugar. Mas ela começou a correr em direção à plataforma. Os minutos estavam correndo. Finalmente ir para a armadilha que se formava à sua frente era a única escapatória.

Perseguida pelo guarda, que em pouco tempo já eram dois, correu. Chegou à plataforma no momento em que o trem parava. Foi em direção ao terceiro vagão. Como estava longe! Olhou para trás, e quatro guardas a perseguiam gritando ordens em japonês. À sua frente, dois guardas perceberam a movimentação e vieram à sua direção. Foi no exato momento que entrou pela porta do trem, e esta fechou-se, e a composição entrou rapidamente em movimento. Respirou fundo e foi em direção aos assentos preferenciais.

Estavam ocupados. Uma mulher gestante e um senhor de idade. Ficou de pé olhando para eles. O senhor estava dormindo e a mulher lia um livro. E nada aconteceu. Sequer sabia o que deveria fazer. Só sabia que estava cansada, assustada e despenteada. Então, a mulher se levantou. E percebeu que no assento vazio ficara um envelope igual aos que já havia recebido. Não podia se sentar ali, mas precisava pegar o envelope. Olhou ao redor.

“O envelope é para a senhorita, Keiko.”

Sobressaltou-se. O idoso, que pensava estar dormindo, ainda conservava os olhos fechados. Pensou se havia realmente ouvido o idoso chamar seu nome.

“O que está esperando?”

Ele abriu os olhos, olhou-a fixamente, e depois olhou para o envelope. Não disse mais nada e, apoiando-se em sua bengala, dirigiu-se para a porta, no momento em que o trem para e ele desce. Keiko não esperou. Pegou o envelope e abriu-o.

DESÇA AGORA.

Apenas isso. E desceu. A curiosidade e o medo dividiam espaço em sua mente. Procurou o idoso, mas nem sinal dele. Seguiu a multidão que caminhava apressadamente para a saída. Não podia ficar parada. Se alguém queria falar com ela, agora deveria encontrá-la e não o contrário. Estava quase na escada rolante, quando viu no painel eletrônico, por alguns poucos segundos, o símbolo de LÁGRIMAS em letreiro de led vermelho. Ficou em choque. Ainda olhando para o painel eletrônico, o símbolo desapareceu, e em seu lugar, um número, que continuou por alguns poucos segundos, e em seguida passou a exibir as informações normais do letreiro. Era um destino.

Havia pego a linha Keikyu, que por coincidência se parecia em pronúncia com seu próprio nome. Estava no centro de Tokyo. Os números que apareceram logo após o símbolo de LÁGRIMA foram: 12-12. Imaginou a princípio que se tratava da data, novamente, da morte de sua mãe. E ficou chocada. Mas não havia sentido! Pensou se era uma localização, afinal, viera até ali. Deveria ser algo. Estava no centro de Tokyo e deveria ir a algum lugar.

Pensou um pouco. Tokyo era conhecida por ser um centro urbano gigantesco, que possuía 23 bairros especiais. Talvez o número 12 fosse um desses bairros. Sentiu-se num filme de suspense, mas precisava pensar. E se não fosse e aquilo a levasse a outro lugar, e perdesse sua pista?

Foi até um quadro interativo. Tocou na tela e buscou pelos bairros especiais de Tokyo. O décimo segundo era Minato. Parecia certo. Crescera em Minato, antes que sua família se mudasse para Yokohama, na adolescência. A pista parecia quente. Suava embaixo daquela roupa, embora a climatização da estação estivesse agradável. Viu a lista dos 49 distritos de Minato. O décimo segundo era Shibakoen. Neste momento, parou.

Sua avó materna era de Shibakoen, e, mesmo não tendo crescido naquele distrito, era um lugar que conhecia bem. Sua mãe crescera em Shibakoen, e Keiko conhecia bem o local. Estava no caminho certo. Saiu de lá, direto para a casa de sua avó.

As dúvidas, o medo e a curiosidade eram sentimentos que deixavam sua mente conturbada. Que mistério era aquele? O que tudo aquilo queria dizer? Por que remexer na morte de sua mãe, que nunca havia sido plenamente solucionada? No trajeto para Shibakoen, pensava o tempo inteiro em como foi problemático o período após os rituais de despedida de sua mãe. Ficara só no mundo, seu pai já era morto há muito tempo. Deixara a casa onde moravam e se mudara, mas nunca tivera coragem de sair de Yokohama, ali era onde ela fora mais feliz. E, principalmente, acompanhara as investigações. Mas nunca encontraram o assassino e tudo teve como resultado inconclusivo. Com o tempo, outros casos foram tomando prioridade e a morte de sua mãe fora deixada de lado. Ela tentou seguir em frente, vivendo sua própria vida, até agora.

Keiko chegou à casa de sua avó e sentiu um misto de saudade e apreensão. Chegou ao alpendre e bateu à porta. Sua avó apareceu, pequenina, olhinhos pequeninos mas vivazes.

“Sobo!” disse Keiko e correu para abraçá-la. Só então percebeu o quanto ficara longe, nestes últimos dois anos.

“Keiko!” A idosa recebeu o abraço da neta e logo a pôs para dentro. Tiraram os sapatos e entraram à sala. A velha senhora correu à copa para preparar o chá, que sempre tomava. Keiko sempre a acompanhava neste chá, era tradição. O cheiro de ervas inundou a casa. Keiko estava de pé, observando as fotos de família, dispostas no móvel antigo. Seu avô e sua avó estavam na maioria delas, seguidos pela sua mãe, em várias idades diferentes. Até que observou um porta-retrato com inscrições kanji, ideogramas antigos que representam palavras inteiras, assim como o símbolo no corpo de sua mãe. Ali estavam ideogramas para a palavra amor e paz, mas no meio deles estava a palavra LAGRIMA novamente. Segurou o porta-retrato na mão.

Na foto, sua mãe sorria serenamente. Estava debaixo de uma horda de cerejeiras brancas em flor, vestida com roupas tradicionais do Japão feudal. Era comum sua mãe às vezes se vestir assim. Apenas em casa. Mas lá estava ela, sorrindo. Nunca vira aquela foto antes. Até perceber que, em seu pescoço, havia uma marca. Próximo à barra de suas vestes, na parte esquerda do pescoço, uma marca de cicatriz.

Sua mãe não tinha cicatrizes. E ali era onde deveria estar a ponta do ideograma com o qual ela fora marcada no momento de sua morte.

Desesperada, Keiko abriu o porta-retrato e olhou a fotografia. Examinando-a encontrou a data. Um ano antes, dia 12 de dezembro. Neste momento, sua avó entra na sala com uma bandeja e duas xícaras fumegantes, e com o susto, Keiko derruba o porta-retratos no chão.

“Sobo! Quando foi tirada esta foto?”

A senhora olha para o rosto da filha sorridente estampado na fotografia.

“Interessante você falar, Keiko... esta foto chegou há três dias pelo correio, com porta-retrato e tudo. Não havia mais nenhuma informação... Eu simplesmente coloquei aí...”

“Sobo, tenho que ir.”

“Mas Keiko, você não tomou seu chá...”

“Eu sei, mas preciso ir.”

Keiko pegou sua bolsa e saiu, dando um breve abraço em sua avó. Levou a fotografia consigo, pois com certeza era mais uma pista.

Com seu celular, acessou a internet e procurou informações. Aquela foto fora tirada exatamente um ano após a morte de sua mãe, o que significa que ela não havia morrido. A cicatriz estava ali para provar isso. Mas Keiko havia participado das cerimônias funerárias e não entendia. Inclusive, recebera as cinzas de sua mãe. Claro, não vira o corpo ser preparado para a cremação. Era cada vez mais comum, todo o serviço era realizado por profissionais. Cada vez menos as pessoas participavam de todas as etapas. Mas aí acreditar que sua mãe não morrera?

Na foto, sua mãe estava debaixo de uma cerejeira, usando yukata, roupa tradicional japonesa. Aquilo devia dizer alguma coisa. Pesquisou sobre as cerejeiras no Japão.

Aquele tipo de cerejeira era a variedade mais popular no Japão, a Somei Yoshino, com flores de um branco quase puro, com um leve tom róseo pálido. Um tipo de árvore que floresce e perde as flores em uma semana. Buscou origens, foi entrando em um site e outro, até encontrar o que parecia ser uma pista. O nome daquele tipo de cerejeira tem origem na vila de Somei, que hoje é parte do bairro de Toshima, em Tokyo. Um dos 23 bairros especiais. Um bairro ao lado do Palácio Imperial.

Essa é a chave. O Palácio Imperial e os Jardins Orientais! Deveria ir para lá imediatamente.

Mas algo estava muito estranho. A data da fotografia. As sakuras, como são chamadas as cerejeiras, estavam em plena floração de primavera. E a data da fotografia era de dezembro. As sakuras floram entre a última semana de março e primeira semana de abril. Estavam na época de floração naquele momento, e o Hanami, observação das flores, estava em pleno vigor.

Keiko teve um pressentimento. Sua mãe não só estava viva, como aquela foto havia sido tirada no Hanami atual, há três dias. Como aquela foto levava uma data mais antiga ela não sabia dizer. Precisava encontrá-la!



Estava no meio da tarde e, ao chegar ao Palácio, muitos já estavam ao seu entorno, debaixo das muitas cerejeiras, em filas para tirar fotografias. Seguira a pista até ali. Deveria haver alguma forma de encontrar sua mãe. Olhou de rosto em rosto, percorrendo a multidão e as filas de japoneses e turistas, procurando. Foi quando viu um senhor idoso, debaixo de uma árvore, olhando para ela.

Era o idoso do trem.

Correu até ele, mas era difícil passar entre as muitas pessoas que se aglomeravam por ali. E o idoso já se encaminhava para dentro do Palácio, relativamente rápido e ágil. Keiko sofria para se aproximar.

“Espere!”

Mas ele não olhava mais para ela. Estava de costas e seguia seu caminho. Seguiu para os Jardins Orientais. E simplesmente sumiu. Keiko o procurou por toda a parte e já estava quase chorando. Os medos que enfrentava estavam deixando sua alma em frangalhos. Não conseguia mais raciocinar direito, apenas precisava encontrar aquele homem.

“Keiko.”

Ela paralisou. Nervosa, virou-se devagar. Lá estava ela. Miúda, como sempre, em sua yukata branca e verde clara. Seus olhos eram os mesmos, mas havia algo diferente lá. Tristeza, talvez?

“Haha?”

“Filha!”

A mulher abraça Keiko, mas ela não se move.

“Haha, você está... viva? Estava viva este tempo todo?” Keiko chorava agora.

“Você entenderá. Depois. Agora, precisamos sair daqui.”

“O quê? Haha, preciso saber!”

Mas a palavra da mulher não dava brechas para conversa. Ela saiu andando e Keiko não teve outra alternativa a não ser segui-la para o interior do Palácio. Passaram para o outro lado, e já havia um carro à espera delas. Ao entrar, Keiko viu o idoso esperando por elas lá dentro.

“Olá, Keiko.” Ele a cumprimentou, fazendo um movimento cordial com a cabeça. Seus olhos apertados a perscrutavam.

Keiko nada respondeu. Estava totalmente em choque, esperando acordar de um sonho. Olhava para sua mãe, ali, sentada e sorrindo, bela e fresca como as sakuras em flor em toda a cidade. Não conseguia acreditar, nem mesmo esperar, mas estava em choque. Até que acordou e percebeu que anoitecia, e já haviam saído da cidade. Estavam na cidade vizinha Saitama, e o motorista não fazia menção de parar.

“Acho que já está na hora de me dizerem o que está acontecendo” disse Keiko, quebrando o silêncio e ignorando a etiqueta.

“Saberá quando chegar a hora, Keiko.” Disse sua mãe.

“Não, haha. Saberei agora. E exijo saber.”

Sua mãe olhou para ela com horror, por ter ouvido tamanha insolência, à qual sua filha nunca usava. Mesmo assim, manteve-se em silêncio.

“Mãe, este silêncio está me matando! Não posso suportar!”

Quem respondeu foi o velho, que observava.

“Keiko, sua mãe teve que forjar a própria morte para escapar de uma guerra. Ela seria morta a qualquer momento.”

“O quê? Mas por quê?” Keiko estava completamente por fora.

“Keiko, Tomiko é minha filha. Você é minha neta.”

Assim. Às claras e sem nenhum rodeio, aquele homem que só vira uma vez antes, num assento preferencial do trem, era o seu avô.

“Não, o senhor está equivocado... o meu avô...” então pensou nas fotos que havia visto na casa de sua sobo. Nunca realmente conhecera seu avô. Ele morrera há muitos anos, antes mesmo de ela nascer. Mas ele era jovem naquelas fotos, e seu olhar tinha algo de firme e persistente, justamente como o olhar daquele velho. “Você?”

Ele confirmou com um movimento de cabeça.

“Mas...”

Desta vez, Tomiko falou. “Meu pai está sendo perseguido. Eu seria uma moeda de troca. Eles me matariam para encontrá-lo. Há muitos anos ele fugiu, e então, há dois anos descobriram que ele estava vivo. A única coisa que o traria para fora de seu esconderijo seria eu. Então me tornei um alvo.”

“E você sabia que ele estava vivo?”

“Não, Keiko. Eu não sabia. E soube da mesma forma que você está sabendo agora. Foi um choque para mim, mas é necessário que você seja protegida. Estão atrás de você também.”

“Atrás de mim?”

“Sim. Na Estação de Yokohama, você quase foi pega. Os homens de seu avô cuidaram de tudo.”
Ela se lembrou da chave de roda. “Belo modo de dizer que cuidaram de tudo.”

“Você não podia saber o que estava acontecendo” disse o avô, “e qualquer comunicação às claras cairia nas mãos deles. Eles saberiam.”

“E... quem são eles?”

O avô e a mãe trocam um olhar significativo. “Quanto menos você souber, melhor.” E encerrou o assunto. Keiko sabia que não adiantaria argumentar. E sua educação não permitia falar mais. Olhou a paisagem.

Foram ao extremo leste de Saitama. O avô parecia ser muito rico, pois entraram numa imensa propriedade, bem vigiada e escondida. “Aqui estaremos seguros” ele falou. Entraram.

Keiko ficou em silêncio. Sozinha no jardim, olhou a lua no céu limpo de primavera. Três cerejeiras começavam a cair as flores. O chão ia ficando cor-de-rosa aos poucos. Ao final da semana, o chão estaria completamente róseo, e todas as flores caídas.

“Seu avô está jurado de morte pela Yakuza.” Tomiko sentou-se ao lado da filha. Keiko não respondeu. Absorvia as informações lentamente. “Tudo isso porque na juventude ganhara uma grande quantia em dinheiro de um amigo numa aposta. Ele não sabia, mas esse amigo é um kobun, protegido de um dos padrinhos da Yakuza. E ele jurou vingança.”

“Mas... morrer? O vovô não pode simplesmente devolver o dinheiro? Ele é claramente rico!”

“A riqueza de seu avô é baseada nesse dinheiro que ganhou no passado. Investimentos, administração, enfim. Tudo veio de lá. Se não fosse por aquele dinheiro, ele não teria nada hoje. O kobun acredita que é dono de tudo que o pai tem, e que não é o suficiente pagar com dinheiro.”

“Mas não há como negociar? Se é um kobun, ele tem um protetor! Ele pode falar com ele.”

“Keiko, o oyabun é Shinoda.”

Keiko ficou paralisada. Shinoda era um nome muito conhecido. Ele é o homem mais poderoso da Yakuza atual, líder do maior clã da sociedade.

“E agora?”

“Agora você tem que aceitar seu destino, como aceitei o meu. Você tem que morrer para viver. Morrer para todos os que ama e conhece e recomeçar. Desaparecer.”

“Mas a minha vida lá fora!”

“Acabou.”

Keiko não conseguia processar essas informações. “Vou viver com você?”

“Não. Devemos sumir. Eu também preciso voltar a desaparecer. Só voltei aqui para encontrar você. Tudo isso foi plano de seu avô. Ele vai sumir, eu vou sumir, você vai sumir.”

“Mas, haha, para onde eu vou?”

“Para o ocidente. Você fala bem o inglês, é uma ótima profissional, é bonita e inteligente, vai conseguir se virar nos Estados Unidos. Lá tem muitos imigrantes japoneses, não vai se sentir tão sozinha assim.”

Keiko queria argumentar, mas pensava ser a melhor coisa.

“E você?”

“Melhor não saber onde estou. Não vamos mais nos ver, nunca mais. Para todos os efeitos, estou morta, seu avô está morto, e você também.”

Keiko olhou para a mãe e olhou para o começo da marca no peito.

“E esta cicatriz?” Ela perguntou.

A mãe abriu um pouco sua yukata, mostrando o símbolo LÁGRIMA desenhado.

“Um efeito colateral. Era preciso.” Sua voz não tinha nenhuma oscilação. Era firme e demonstrava que superou tudo. “Uma pequena mala com o essencial está pronta. Você será levada a uma estação. Não se preocupe. Está tudo acertado. Você vai por terra até Aomori. Em sua bagagem há documentos novos para você, e uma passagem. Não olhe para trás, filha. Siga em frente.”

Keiko olhou para sua mãe. Aquela era uma despedida definitiva. Jamais veria sua mãe de novo. Era uma nova despedida. Mas ao menos sabia que ela estaria viva, em algum lugar desse planeta.

“Sayonara.”

Tomiko olha para a filha. “Sayonara.”

Se abraçam.

“Está na hora.”

Um homem carregou a bagagem de Keiko até o carro. Ela segurou uma lágrima, lembrando-se da inscrição no peito da mãe. Aquele símbolo seria muito mais que um simples ideograma. Então, se foi. Para sempre.

Mudança de vida total. Deixava para trás as lindas sakuras. A sua família despedaçada, como as pétalas das cerejeiras que começavam a cair. Mas ao menos, estavam todos vivos. Era isso o que importava. No carro, desenhou num papel o ideograma LÁGRIMAS. Ao menos sabia por onde começar sua mudança. Aquele seria um bom desenho para uma tatuagem nas Américas. Radicalizar...
E sorriu, desta vez com esperança de um futuro diferente em seu horizonte.


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4 comentários:

  1. Esses textos são de sua autoria?
    Se sim, meus parabéns, você tem muito talento!

    http://www.pitangarosaa.blogspot.com.br/

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  2. Que texto esplêndido! Deu para perceber que pesquisastes muito bem, acerca da cultural oriental.
    Parabéns.♥

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    1. Obrigada, Sandreanny! Seja bem vinda ao blog!
      Abraços!

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